Céu aberto na base e voo transferido: a regra do aeroporto de alternativa
Acontece com frequência: o céu está aberto na base, o boletim do aeroporto está verde e, mesmo assim, o voo é transferido por condições meteorológicas. Uma das explicações está numa regra pouco conhecida de quem embarca: a do aeroporto de alternativa. Este guia explica a regra e mostra, em 16.580 voos com tempo bom na base, quando ela aparece nos números.
O que é o aeroporto de alternativa
Todo voo por instrumentos precisa ter, no plano de voo, um aeroporto de alternativa: o lugar para onde o helicóptero segue se, na hora de pousar, o destino estiver fechado. No voo offshore isso pesa mais. No mar não há onde pousar além das unidades, e a volta termina na base: se a base fechar enquanto o helicóptero está na unidade, ele precisa de outro aeroporto em terra ao alcance do combustível.
- Na Bacia de Campos, só voam aeronaves e tripulações homologadas para voo por instrumentos, e o plano de voo por instrumentos do continente para as unidades, e de volta, tem que indicar como alternativa um aeroporto ou heliponto no continente (publicação aeronáutica do DECEA, AIP Brasil, ENR 2.1.1).
- Um aeroporto só pode ser indicado como alternativa se a previsão do tempo para a hora estimada de chegada a ele estiver nos mínimos de pouso por instrumentos ou acima (RBAC 135 da ANAC, seção 135.221).
- O helicóptero precisa levar combustível para chegar ao destino, seguir até a alternativa e ainda voar mais 30 minutos (RBAC 135, seção 135.223).
Ou seja: com a base aberta, mas sem nenhuma alternativa válida ao alcance, o plano de voo não fecha dentro da regra.
Quatro detalhes que fazem diferença
- Basta uma alternativa válida. Se a mais próxima está ruim e outra está boa, a regra é cumprida com a outra, desde que dê para chegar lá com o combustível.
- A cor do aeroporto não é o mínimo da regra. No offvoos, cada aeroporto aparece como operacional (verde), atenção (amarelo) ou restrito (vermelho), pelo critério público da REDEMET: verde com visibilidade de 5 km ou mais e teto de 1.500 pés ou mais; vermelho com visibilidade abaixo de 1.500 metros ou teto abaixo de 600 pés. Os mínimos de pouso são outros, publicados aeroporto a aeroporto, e um aeroporto em atenção pode continuar servindo de alternativa.
- Vale a previsão, não o boletim de agora. O que conta é o tempo previsto para a hora em que o helicóptero chegaria à alternativa, e não o boletim do momento da decolagem.
- Alternativa mais longe custa combustível. Quando a mais próxima não serve, uma mais distante pode ser usada, mas exige mais combustível, o que pode reduzir o peso disponível para passageiros e carga.
Esse motivo quase nunca vem escrito. Na programação, a transferência por tempo traz quase sempre só “condições meteorológicas”, sem dizer onde: em mais de 8 mil observações do período, os “aeroportos alternativos” apareceram uma única vez. Por isso fomos aos boletins.
Para onde os voos de cada base desviam
Uma pista de quais aeroportos servem de alternativa é para onde os voos foram quando não voltaram à base de origem. Conferimos cada caso no radar e deixamos de fora os translados, em que o helicóptero só mudou de base para operar de outro aeroporto naquele dia:
| Base | Para onde os voos desviaram |
|---|---|
| Jacarepaguá | Galeão (20 voos), Maricá (7) e Cabo Frio (4) |
| Maricá | Cabo Frio (23) e Jacarepaguá (1) |
| Cabo Frio | Jacarepaguá (3) e Maricá (2) |
| Macaé | São Tomé (2) |
| São Tomé | Macaé (1) |
Nos números abaixo, usamos como alternativas de cada base esses aeroportos e, no norte fluminense, também o aeroporto de Campos (Bartolomeu Lisandro), vizinho das duas bases.
O que os números mostram
Separamos só os voos em que o tempo na própria base estava verde na hora do voo e continuou verde duas horas depois, para que o tempo da base não explique a transferência. Depois, comparamos a parcela de voos transferidos por condições meteorológicas conforme o estado das alternativas (“ruim” = amarelo ou vermelho; “—” = não aconteceu no período):
| Base | Todas verdes | Parte ruim | Todas ruins |
|---|---|---|---|
| São Tomé | 1,3% | 4,6% | 28% |
| Macaé | 2,2% | 2,3% | 16% |
| Cabo Frio | 5,4% | 5,5% | 9% |
| Jacarepaguá | 6,6% | 11% a 35% | — |
| Maricá | 3,4% | 10,7% | 35% |
- No norte fluminense, o salto vem quando as duas caem. Em São Tomé, com Macaé e o aeroporto de Campos verdes, só 1 em cada 77 voos foi transferido por tempo; com uma das duas ruim, pouco muda; com as duas ruins ao mesmo tempo, mais de 1 em cada 4. Em Macaé, o desenho é o mesmo: cerca de 2% com nenhuma ou uma alternativa ruim, 16% com as duas. É o padrão que a regra descreve: o que pesa é ficar sem nenhuma alternativa.
- Em Maricá, os dois efeitos se misturam. Com Cabo Frio e Jacarepaguá ruins ao mesmo tempo, o que aconteceu em 7 dias, mais de 1 em cada 3 voos foi transferido por tempo, contra 1 em cada 29 com as duas boas. Mas com só uma delas ruim a parcela já triplica, para 10,7%: parte é falta de alternativa, parte é tempo ruim na região, na rota e no mar.
- Jacarepaguá quase nunca fica sem alternativa. Galeão, Maricá e Cabo Frio ficaram ruins ao mesmo tempo, com a base boa, em um único voo do período. A chance de transferência sobe conforme os vizinhos pioram (11% com um ruim, 35% com dois), o que parece mais tempo ruim na região do que a regra da alternativa.
- Cabo Frio fica no meio: com Jacarepaguá e Maricá ruins ao mesmo tempo, a parcela subiu de 5% para 9%.
- São poucos dias: as duas alternativas ruins com a base boa aconteceram em 9 dias em São Tomé, 7 em Maricá e 5 em Macaé, quase todos em maio, agosto e setembro. E quando os aeroportos vizinhos fecham, o tempo na rota costuma piorar junto. Os números são um indício forte, não a prova de que cada uma dessas transferências foi pela alternativa.
Como usar essa informação
Os números descrevem o que aconteceu. Não são previsão para o seu voo, e a decisão de voar é sempre da operadora e da logística, que olham previsões e mínimos que nenhum painel público mostra. Mas ajudam a entender um dia confuso: se a base está verde e o voo foi transferido por tempo, o motivo pode estar na rota, no destino ou nos aeroportos vizinhos. O painel de tempo mostra a cor de cada base; para entender o boletim, veja o guia como ler o METAR; para saber como as transferências são anunciadas, o guia Voo transferido; e, para receber o aviso quando o seu voo for transferido, o bot do Telegram.